As manifestações e a política econômica

Postado por Tharcisio Souza Santos em junho 24, 2013

Decorridas duas semanas do movimento que tem realizado um grande conjunto de manifestações em numerosas cidades brasileiras, cabe uma análise sobre as motivações desse movimento, a ação do governo em resposta ao clamor das ruas e as perspectivas no médio e longo prazos.

Como é do conhecimento geral, o movimento começou como um protesto contra a elevação das tarifas de transportes urbanos, consideradas muito elevadas e incompatíveis com a má qualidade dos serviços oferecidos aos usuários. No entanto, na medida em que se tratava de um movimento apartidário, novas reivindicações começaram rapidamente a surgir: a revogação da PEC 37, que proíbe o Ministério Público de agir contra a corrupção, reservando essa tarefa para as polícias federal e estadual; o absurdo valor investido nos estádios destinados a sediar a Copa do Mundo, muitas vezes superior às estimativas preliminares para esses investimentos e incompatíveis com um país que tem carências tão grandes nos campos de educação e saúde; a relação incestuosa entre empreiteiros de obras públicas e políticos dos diferentes níveis, do executivo e do legislativo, responsável por uma parcela apreciável dos elevados custos de investimento já mencionados.

Enfim, um movimento de indignação relativamente à elevadíssima carga tributária brasileira (a maior entre os países emergentes) e a péssima qualidade dos serviços oferecidos em contrapartida. Tratava-se de uma dupla reivindicação: carga tributária mais consentânea com o estágio de desenvolvimento do país e melhor qualidade dos serviços públicos.

Por outro lado, além das massas pacíficas, que se manifestaram seguidamente, sem muito comando e direção, mas de maneira muito clara em relação às suas reinvindicações, o movimento também sofreu – como acontece muitas vezes – a infiltração de elementos mal intencionados, que querem produzir a baderna pela baderna e que partiram para a destruição do patrimônio público e privado. Para estes últimos, sentimos falta do braço do Estado, que não pode compactuar com esse tipo de postura e deve reprimir exemplarmente manifestações de absoluta inadequação. Vândalos devem ser processados exemplarmente, para que, no futuro, não voltem a agir da mesma forma.

Analisando agora as questões de política econômica, deve-se concordar que existe um cenário muito complexo à frente. Em meio a este cenário complexo, releva notar o que parece ser uma absoluta falta de foco, por parte dos formuladores de política econômica: ao invés de priorizar os investimentos em educação, saúde e infraestrutura, uma orientação de privilegiar o consumo, concedendo uma série de isenções fiscais para alguns setores, esquecendo outros setores de lado e criando meios para elevar a arrecadação em outros setores, de maneira a compensar a perda dos incentivos concedidos.

O resultado parece muito ruim: além da insatisfação popular, um crescimento persistente da taxa de inflação, a desvalorização do real de modo acelerado, refletindo a fuga dos investimentos estrangeiros e a consequente queda nas cotações da Bovespa. Resultado: excluindo o nível de emprego, que continua elevado, o país está perdendo sua posição de destaque no mundo, com as agências de classificação de risco emitindo sinais de revisão de suas avaliações, uma escalada inflacionária e a perda do ritmo de crescimento.

É absolutamente urgente revisar a política que tem orientado o governo, sob pena de se perder esta magnifica oportunidade de desenvolvimento que o país vivencia desde a crise global de 2008.

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