Arquivo de maio, 2015

A mudança do cálculo do PIB

Postado por Tharcisio Souza Santos em maio 4, 2015  |  No Comments

Divulgada em março pelo IBGE, a revisão das séries trimestrais trouxe novidades no cálculo das contas nacionais que não mudam o cenário de extrema dificuldade por que passa a economia brasileira.

Ainda assim, os resultados anteriores de crescimento do produto em 2012 e 2013 sofreram ligeiros acréscimos. Os resultados anuais da produção global de bens e serviços foram elevados em 0,8% em 2012 e 0,2% em 2013, passando – respectivamente – a indicar crescimentos anuais de 1,8% e 2,7%.

Apesar de ser uma alteração tecnicamente recomendada, é lamentável a ocorrência de modificações no cálculo de variáveis econômicas, que interrompem séries históricas e prejudicam uma análise mais aprofundada das tendências.

Com os ajustes, que se refletem durante todo o exercício de 2014, observa-se que a taxa acumulada no ano passa a 0,1%, fugindo do aspecto negativo que as previsões mais pessimistas se valiam, e que apontava para um crescimento negativo para o PIB.

Os resultados, no entanto, assinalam o caráter de estagnação da economia, com a indústria apresentando um decréscimo de 1,2% no período, a agropecuária crescendo 0,4% e apenas o setor de serviços mostrando uma capacidade de crescimento ligeiramente maior, com parcos 0,7% de expansão ao longo do exercício.

Quando se analisa o problema sob a ótica da despesa, constata-se que os investimentos e o comércio exterior foram responsáveis pelo baixo desempenho global da economia brasileira.

Os primeiros registraram uma redução de 4,4%, provocada pela queda na produção de bens de capital e pelo desempenho medíocre verificado na construção civil.

Ao mesmo tempo, o comercio exterior sofreu uma contração de -0,1%, decorrente de uma redução do volume das exportações equivalente a -1,1% durante o ano.

O que se depreende da análise dos dados divulgados pelo IBGE é que a economia brasileira se acha em um processo de estagnação. Esse fato é mais preocupante ainda quando se verifica que os setores que apresentaram desempenho ligeiramente melhor não são os que se caracterizam pelo uso de tecnologias mais avançadas e, portanto, pela geração de empregos mais qualificados.

Será necessário um esforço enorme para reverter esse processo, não apenas de redução do volume produzido e consequente queda no emprego, como para gerar postos de trabalho de maior valor agregado. Isso só será possível com uma política consistente de investimento em educação e inovação e, como sabemos, esta é uma meta de longo prazo.

Como sempre acontece com resultados negativos, os problemas não se encerram por aí. É possível que a mudança de cálculo do PIB redunde na solicitação de revisão dos salários de 2014 e na elevação do novo salário mínimo. Isto porque os reajustes devem, de acordo com a MP de março deste ano seguir a metodologia que recomenda a correção salarial de acordo com a inflação acrescida do aumento de produtividade, constatado através da taxa de crescimento do PIB de dois anos anteriores.

Ora, se ocorreu uma revisão das contas e os números do crescimento do PIB são agora maiores para 2012 e 2013, deveria então haver uma compensação nos salários neste momento. No entanto, nada mais inadequado, quando se observa uma contração no emprego: eventual ajuste para cima provavelmente desencadearia um reforço no processo de demissão de funcionários pelos diferentes setores da economia.

Fonte: Folha de São Paulo de 15/4/2015

Arquivado em: Economia